Paradoxo, ironia e loucura em alguns contos de Machado de Assis[1]

 

 

            Amina Di Munno

Universidade de Génova

 

 

“Nunca pude entender a conversação que tive com uma senhora, há muitos anos, contava eu dezessete, ela trinta. Era noite de Natal. Havendo ajustado com um vizinho irmos à missa do galo, preferi não dormir ; combinei que eu iria acordá-lo à meia-noite”[2]. È o incipit de Missa do Galo, um dos mais célebres e sugestivos contos de Machado de Assis, por definição o maior dos escritores brasileiros. Vários são os contos conhecidos e internacionalmente apreciados entre os cento e setenta e oito por ele escritos com diferentes destinações e mais tarde organizados em volume (Contos fluminenses, 1869; Histórias da meia-noite, 1873; Papéis avulsos, 1877-82; Histórias sem data, 1884; Várias histórias, 1896; Páginas recolhidas, 1899; Relíquias da casa velha, 1906) que demarcam a trajetória do narrador. Embora a sua fama esteja ligada aos grandes romances - entre os quais ressalta a trilogia Memórias póstumas de Brás Cubas (1881), Quincas Borba (1891) e Dom Casmurro (1889) - Machado permanece essencialmente um criador de contos. No sentido que exatamente a medida do conto lhe consente, mais do que o afresco do romance, a compenetração na psicologia da sociedade do Segundo Império, sua constante matéria poética. Nisto insere-se ele tanto na tradição do conto francês (Victor Hugo, Balzac, Maupassant, Stendhal, Flaubert) como na esteira de uma corrente nacional cujos primeiros modelos são autores quais José de Alencar, Joaquim Manuel de Macedo e Luís Guimarães Filho. È num estilo limpido, polido e ao mesmo tempo coloquial que ao curso tipicamente linear dos acontecimentos vemos corresponder a finura da linguagem e a facilidade expressiva.

Nascido no Morro do Livramento, no Rio de Janeiro, a 21 de Junho de 1839, Machado publicou as suas melhores páginas entre os últimos vinte anos de Oitocentos e o início do século XX. Morreu em Setembro de 1908 na mesma cidade do Rio, donde só se afastara para breves estadas de descanso e tratamento na próxima Nova Friburgo, viagens sempre realizadas em companhia da esposa Carolina Augusta de Novais. Machado de Assis foi contudo um grande viajador nos espaços da cultura e, perfeito autodidata, visitante assíduo e infatigável da tradição literária européia, cujos textos ele lía, na maioria dos casos, na língua original. Baste pensar no obstinado empenho com que, numa idade já avançada, enfrentara o estudo do alemão.

O exórdio literário dera-se muito cedo, em 1855, com um texto poético, A Palmeira, publicado no jornal “Marmota Fluminense”. Logo depois, e em pouco tempo, se revelará, além de poeta, narrador, cronista, polemista e agudo ensaista. Da prática jornalística, Machado conservará o gosto pelo sketch, pela estrutura típica das crônicas ou folhetins, cuja repartição em episódios provocará a subdivisão do conto em capítulos. Os eventos correm rápidos acima de uma construção apenas apontada ou esboçada e isto se traduz numa grande eficácia narrativa e numa rara naturalidade expressiva: uma ars scribendi peculiaríssima, que se rege no desenho das personagens, nas psicologias e numa série de pequenos acontecimentos requintadamente transfundidos na matéria poética. Tanto o homem quanto o escritor refugem do gesto trágico, elegíaco ou solene, assim como do tom enfático, e não há sombra de erotismo ou de violência exacerbada nem sequer no último Machado, o mais sarcástico e niilista. Ele possui o dom da medida e da discrição, a sua linguagem è fluente e atenta, sem indulgências românticas nem ornamentações.

            É nesses pressupostos, por exemplo, que se funda a severa apreciação crítica acerca doPrimo Basílio de Eça de Queirós. Machado reconhece o grande talento, a capacidade de observação e a “perfeição de uns dos caracteres” criados pelo escritor português, todavia “ O sr. Eça de Queirós não quer ser realista mitigado, mas intenso e completo, e daí vem que o tom carregado das tintas, que nos assusta, para ele é simplesmente o tom próprio. Dado, porém, que a doutrina do sr. Eça de Queirós fosse verdadeira, ainda assim cumpria não acumular tanto as cores, nem acentuar tanto as linhas; e quem o diz è o próprio chefe da escola, de quem li, há pouco, e não sem pasmo, que o perigo do movimento realista é haver quem suponha que o traço grosso é o carácter exacto. Digo isto no interesse do talento do sr. Eça de Queirós, não no da doutrina que lhe é adversa; porque a esta o que mais importa é que o sr. Eça de Queirós escreva outros livros como o Primo Basílio. Se tal suceder, o Realismo na nossa língua será estrangulado no berço; e a arte pura, apropriando-se do que ele contiver aproveitável (porque o há, quando se não despenha no excessivo, no tedioso, no obsceno e até no ridículo), a arte pura, digo eu, voltará a beber aquelas águas sadias do Monge de Cister, do Arco de Santana e do Guarani”. (Artigo publicado por Machado de Assis, assinado com o pseudónimo de Eleazar, na revista carioca “O Cruzeiro”, 16 de Abril de 1878).

            Na douta querelle derivada dessas suas observações sobre os modos narrativos do ilustre “adversário”, Machado de Assis revela-se um profundo conhecedor daquilo que hoje definimos “narratologia”, antes ainda de tornar-se, come intérprete, uma das suas pontas de diamante.

 

 

            No Brasil, o conto, como gênero literário, afirma-se particularmente com o advento do Romantismo. E aqui também, como na Europa, a novidade relevante é neste século a descoberta da psicologia da personagem (circunstância que levará a focalizar principalmente nas figuras femininas a atenção do narrador). Machado vive culturalmente todas as experiências intelectuais do seu tempo de transição de um Romantismo de maneira a um Realismo que no Brasil, como na Europa, caracteriza a segunda metade do século XIX. Eis então a crítica religiosa, o evolucionismo, o darwinismo, o naturalismo e o cientismo, em todas as suas possíveis valências, mobilizados em tirar das leis da experiência quotidiana uma poética, no seu caso, de tal maneira original que chegou a ser considerada “uma ilha” em relação ao novo como ao velho mundo. É, portanto, com estes pressupostos que se torna possível examinar alguns dos contos de Machado de Assis. O primeiro e mais significativo aos fins de uma leitura de cunho psicanalítico è O alienista.

            Entre o Positivismo fin de siècle e o Neo-Realismo, no momento em que cresce a incerteza e com ela a dúvida sobre a infalibilidade da ciência, Machado dá a lume esta história inquietante, maliciosamente irônica e jocosamente satírica sobre o eterno tema da loucura: à sua maneira, na realidade, ele reescreve a história da psiquiatria.

            As primeiras “casas de orates” surgiram antes na Europa, e logo depois em outras partes do mundo, entre 1650 e 1750. Em 1838, Jean-Étienne-Dominique Esquirol redigira uma nova proposta de lei sobre os alienados mentais e definira a psiquiatria forense como legítima atividade médico-legal, visto que as relações normativas entre a psiquiatria e os loucos eram coercitivas, reproduzindo as intervenções penais (conforme Kurt Kolle, efetivamente, “a psiquiatria científica não existia até os meados do século XIX, [...] o reconhecimento que as pessoas com distúrbios mentais são enfermas [...] ganhou terreno muito lentamente a partir da segunda metade do século XVIII”). Ora, esta mudança de opinião e a consequente inclusão da psiquiatria na medicina foram determinadas por um livro, publicado em 1845 pelo psiquiatra alemão Wilhelm Griesinger, Pathologie und Therapie der psychischen Krankheiten, em que a afirmação, que “as doenças mentais são doenças do cérebro”, produziu a aproximação da psiquiatria às ciências naturais. É possível conjeturar com verossimilhança que Machado de Assis tivesse conhecimento desses estudos e das publicações a ele coevas sobre o assunto. Todavia, assim como no conto O alienista os habitantes da vila de Itaguaí ficam assombrados ao saber que a todos os loucos reclusos na Casa Verde seria dada liberdade e nela seria dado alojamento às “pessoas que se achassem no gozo do perfeito equilíbrio das faculdades mentais “ (Machado de Assis, op. cit. p. 82), o atual leitor fica assombrado frente à análise ante-litteram feita por Machado de Assis sobre o conceito de normalidade.

            “ - Nada tenho que ver com a ciência; mas se tantos homens em que supomos juízo são reclusos por dementes, quem nos afirma que o alienado não è o alienista”? (op. cit. p. 65).

            Para nós de fato a crítica ao redor da normalidade nasce só por volta de 1960 com o movimento anti-psiquiátrico, que “quer uma supremacia do louco sobre o são” (e não é necessário deter-nos aqui sobre as teorias da anti-psiquiatria desenvolvidas por Cooper, Esterson e principalmente por Ronald Laing, autor do livro The divided self, cujo título traduz aproximadamente o termo grego esquizofrenia (schizein, phren), repropondo a visão psiquiátrica do esquizofrênico como “personalidade cindida”). Não é só no conto-romance O alienista que Machado de Assis percorre as etapas da parábola da loucura, como também em outros contos-símbolo, quais A segunda vida, O enfermeiro, A causa secreta.

Encarnação de uma particular loucura, flagrante exemplo de uma personalidade dividida è ainda uma vez a personagem do conto O espelho, cujo subtítulo é: Esboço de uma nova teoria da alma humana, que deixa “ficar de boca aberta” os próprios interlocutores ao argumentar sobre o enunciado conforme o qual “Cada criatura humana traz duas almas consigo: uma que olha de dentro para fora, outra que olha de fora para dentro... Espantem-se à vontade; podem ficar de boca aberta, dar de ombros, tudo; não admito réplica. Se me replicarem, acabo o charuto e vou dormir. A alma exterior pode ser um espírito, um fluido, um homem, muitos homens, um objeto, uma operação. Há casos, por exemplo, em que um simples botão de camisa é a alma exterior de uma pessoa; - e assim também a polca, o voltarete, um livro, uma máquina, um par de botas, uma cavatina, um tambor, etc. Está claro que o ofício dessa segunda alma é transmitir a vida, como a primeira; as duas completam o homem, que é, metafisicamente falando, uma laranja. Quem perde uma das metades, perde naturalmente metade da existência; e casos há, não raros, em que a perda da alma exterior implica a da existência inteira” (op. cit., p. 132).

Se aceitarmos a concepção corrente, através da qual cada escritor cria uma escritura com a sua própria individualidade, os seus arquétipos, a sua vivência e a sua cultura, talvez não seja excessivamente ousado vislumbrar no interesse de Machado de Assis para com o irresolúvel mistério da alma humana, no âmbito das moléstias cerebrais, inclusivemente uma sorte de autodefesa.

Machado de Assis sofria de uma doença, a epilepsia, à qual, durante séculos, foram atribuídas características psíquicas de anormalidade. Ele temia, provavelmente, suscitar atitudes de preconceito e portanto, exprimindo em chave irônica, através do paradoxo, as próprias teorias sobre a Casa Verde, “essa Bastilha da razão humana”, talvez realizasse uma catarse. Existe, com efeito, entre os preconceitos que sobrevivem acerca da epilepsia, a opinião que o epiléptico é caracterizado por uma específica personalidade mórbida. De fato, as crises, geralmente imprevisíveis, de que padece, o expõem a riscos, traumas, frustrações, disforia e a um consequente isolamento social que poderiam justificar um estado de inquietude e de pavor. Além de tudo isso, todavia, sobressai neste conto emblemático o elemento literário, metáfora da loucura como topos peculiar das literaturas de língua portuguesa, desse universo mítico lusitano.

E, literariamente, Machado de Assis propõe ou repropõe temas e mitos como os do heróe-prometeu ou do amor-fatalidade, valendo-se de situações eternas quais o triângulo amoroso marido-mulher-amante. Ao longo de todo o século XIX o matrimônio é tratado principalmente sob o aspecto da respeitabilidade da mulher ou da traição, esta última indagada em suas facetas cômicas ou trágicas, e em suas soluções extremas, o duelo ou a morte (o crime cometido para vingar a honra faz parte do código de comportamento burguês). Neste quadro insere-se o conto A cartomante, que se abre com uma bela imagem: “Hamlet observa a Horácio que há mais cousas no céu e na terra do que sonha a nossa filosofia.” (op. cit., p. 239), que è também uma frase de Shakespeare (Ato 1°, cena 5°, versos 174-75), e se conclue tragicamente. Um explicit pouco comum entre as muitas histórias burguesas e conjugais de Machado, que são sempre histórias isentas de rudeza e ricas de acume, de humour e de velada sensualidade, situações que criam a atmosfera bizarra de alguns dos seus mais extraordinários trechos. Com a mesma graça ele descreve casos, conta anedotas, refere histórias insólitas e antecipadamente surrealistas, funde cenas de vida quotidiana ou de pura fantasia, notas de costume e caracteres (paradigmático o do escrivão Coimbra, do homônimo conto, que não acreditava em outra coisa senão na loteria e que para tentar a sorte cedia a qualquer superstição, assim como ao “mito maligno” do jogo do loto cederam, em área italiana, os protagonistas da Novella prima do Padre Cesari e, em tempos a nós mais próximos, os do Paese di Cuccagna da escritora Matilde Serao).

Profundo conhecedor do coração humano, com tons e cores de diferentes matizes, Machado de Assis desenha os seus retratos imortais.

Valham estes poucos exemplos para dar do grande artista uma imagem que, embora provisória, seja o menos parcial possível.

 

           

 

Referências bibliográficas

 

Castro, Walter de; Metáforas machadianas: estruturas e funções, Rio de Janeiro 1977.

 

Cooper, David Graham; Psichiatria e antipsichiatria, A. Armando (collana medico-pedagogica, 23), Roma 1969. Título original: Psychiatry and anti-psychiatry.

 

Esquirol, E; Des Maladies Mentales, (considerées sous les rapports médical, higiénique et médico-légal), J. B. Baillière, Paris 1838.

 

Esterson, A. e R. D. Laing, Normalità e follia nella famiglia, a cura di Letizia Jervis Comba, Einaudi, Torino 1970, 9° ed.

 

Filho, Luís Viana; A vida de Machado de Assis, São Paulo 1965.

 

Griesinger, Wilhelm; Traité des Maladies Mentales, Pathologie et Thérapeutique, Adrien Delahaye, Libraire-Éditeur, Paris 1865.

 

Gomes, Eugênio; A arte do conto em Machado de Assis, em ”RCB”, Maio-Junho 1964.

 

Jung, Carl Gustav; Il problema della malattia mentale, Boringhieri, Torino 1975.

 

Jung, Carl Gustav; Simboli della trasformazione, analisi dei prodromi di un caso di schizofrenia, Boringhieri, Torino 1976, 2° ed.

 

Kolle, Kurt; Das Bild des Menschen in der Psychiatrie, Munchen 1954.

 

Laing, David Ronald; L’io diviso: studio di psichiatria esistenziale, prefazione di Letizia Jervis Comba, Einaudi, Torino 1969, 2° ed. Título original: The divided self.

 

Laing, David Ronald; L’io e gli altri: psicopatologia dei processi interattivi, introduzione di Benedetto Saraceno, Sansoni, Firenze 1988. Título original: The self and others.

 

Simões, João Gaspar; Eça de Queirós, a obra e o homem, Arcádia, Lisboa 1981, 4° ed.

 

Simões, João Gaspar; Vida e Obra de Eça de Queirós, Bertrand, Lisboa 1979.



[1] Versão do posfácio publicado em: J. M. Machado de Assis, La Cartomante e altri racconti, a cura di Amina Di Munno, Einaudi, Torino 1990.

[2] Machado de Assis, seus 30 melhores contos, Nova Fronteira, Rio de Janeiro 1987, p. 327.